Minicurso 11
A lírica de Hilda Hilst: o porco-poeta que se sabe
Este minicurso tem por objetivo guiar um passeio pela obra poética de Hilda Hilst (1930-2004), na tentativa de perscrutar seus pontos de força. Despontada para o cenário literário brasileiro na década de 1950, Hilda Hilst se firma como poeta, de acordo com a crítica especializada, efetivamente na década de 1970, com a publicação de Júbilo, memória, noviciado da paixão. Numa época pretensamente antilírica, cujo maior paradigma foi a poética de João Cabral de Melo Neto, Hilda Hilst opta por uma expressão essencialmente lírica, na qual um eu se situa no mundo em face de um Outro (o amante ausente/presente, a morte, Deus), somada ao diálogo com tradições longínquas, a exemplo da sua revitalização de formas tais como sonetos, cantares, baladas, odes, elegias. Nos anos 1980, a partir da publicação de Poemas malditos, gozosos e devotos, o veio blasfematório da sua prosa migra para sua poesia e, ao discurso do desejo, de busca e interrogação, acrescenta-se a tensão entre alto e baixo, sublime e grotesco, que coloca, lado a lado, uma retórica místico-religiosa e um sensualismo desembaraçado. O caso mais exemplar dessa tensão é a imagem que a poeta recolhe para si: a do porco-poeta, ser que é nomeador e, ao mesmo tempo, sacrifíciável. Seja na poesia, seja na prosa, a dicção de Hilda Hilst é considerada hoje como uma das mais originais e instigantes da literatura brasileira contemporânea.
Higor Alberto Sampaio (PG – UNESP/ São José do Rio Preto)