Minicurso 23
Poesia é isso e aquilo: um estudo das reflexões metapoéticas na poesia de Sebastião Uchoa Leite
A questão da metalinguagem na poesia de Uchoa Leite é considerada um elemento de grande força dentro de sua composição poética, tendo em vista o fato de que é por meio dela que o cenário da poesia moderna, em um de seus variados aspectos, se manifesta. Na obra de Sebastião Uchoa Leite a tematização de elementos referentes ao fazer poético é recorrente: “escrita”, “escritos”, “língua”, “poeta”, “poética” e “poesia” são palavras que aparecem com freqüência. Além disso, encontram-se também expressões que indicam valores e técnicas referentes a certo fazer poético moderno: “exatidão”, “harmonia”, “lógica”, “método”, “normas”, “ordem” e “regra” freqüentam as páginas dos seus livros. Dessa maneira, podemos dizer que não há nenhuma novidade até aqui, pois a poesia, a partir da modernidade, sempre fez questão de apresentar suas estruturas, de mostrá-las funcionando.
No entanto, essas técnicas de criação poética são combinadas com idéias de instabilidade: a exatidão se torna uma mentira, a harmonia é desarmônica, a lógica, antilógica, os métodos, antimétodos, da ordem germina a desordem, e para encerrar a teia de enigmas todas as regras de funcionamento, sejam de criação estética como de interpretação do real, são ocultas ou secretas, e na maior parte dos casos, ambíguas. É por meio dessa dualidade/ambigüidade que a poesia de Sebastião Uchoa Leite se constrói, e em conseqüência, suas reflexões metapoéticas e sua configuração de sujeito lírico.
Em virtude dessa dualidade/ambigüidade constante, a problemática é ampliada em outra: poesia pode ser isso e aquilo, uma vez que o rigor de criação poética - as regras secretas da poesia de Sebastião Uchoa Leite - são mescladas a uma encenação de falta de rigor, pretensa falta de regras com as quais ele mesmo rompe em relação à sua produção poética inicial, trazendo à tona uma relação ambígua com o processo de composição. Essa dualidade problematizadora da poesia e da realidade (enquanto categoria ficcional) é um dos elementos que corroboram a compreensão da metalinguagem nas produções poéticas de Uchoa Leite.
Juliana Silveira (PG – UNESP/ São José do Rio Preto)